Visão Estratégica na Gestão de Carreira

estratégia de carreira

Pessoa vs Mercado

Numa época de desmaterialização de processos e de uma aparente inversão da pirâmide de Maslow, na forma como a sociedade perspetiva a vida, as organizações correm atrás dos perfis profissionais ideais, de forma assíncrona, fazendo com que, por vezes, se encontrem costas com costas sem sentirem a presença um do outro.
Verificamos, por vezes, que a escuta ativa não existe, seja porque os profissionais não se posicionam de modo atrativo no mercado ou, ainda, porque quando se viram e ficam frente a frente com a organização as duas partes apenas falam das suas necessidades, sem darem atenção às carências dos outros, não se gera a confiança e empatia necessária para que possam construir uma relação simbiótica.

Por outro lado constata-se demasiadas vezes um desfasamento entre o que o mercado procura e o que os/as profissionais têm a oferecer na dimensão técnica. Estes e outros fenómenos levam a um desequilíbrio no mercado, onde há pessoas altamente qualificadas sem emprego ou insatisfeitas com o trabalho que realizam e há, também, organizações que procuram incessantemente talento, sem sucesso, porque procuram competências diferentes das que estão disponíveis no mercado laboral.

É, por isso, tão comum ouvir pessoas a dizerem que têm muitas competências, mas não encontram emprego e que o problema só pode estar relacionado na forma como comunicam com o mercado e ser igualmente banal observar empresas dizerem que vão criar ou já criaram academias, internamente, para desenvolverem competências-chave nos seus trabalhadores, essenciais para o desenvolvimento do seu negócio.

Vivemos numa época em que quem está ou pretende estar em transição de carreira acredita que o seu problema é essencialmente de forma e em que as empresas creem que se trata, acima de tudo, de um problema de conteúdo, não da falta dele mas das características do mesmo. Felizmente há uma dimensão em que o consenso começa a imperar, para trabalhadores/as e empresas: as competências pessoais, emocionais e sociais são de extrema relevância para que a relação laboral seja saudável e bem-sucedida.

Num mundo em que as pessoas cresceram e se desenvolveram num sistema baseado na meritocracia escolar, “resultadista” e, tendencialmente, focado na análise quantitativa e pouco ligada à qualidade da pessoa, enquanto preditor de sucesso profissional, é comum a sensação que as acompanha de um processo natural e sequencial, desde o ensino básico até ao ensino superior, encarando o mesmo como a última etapa antes de um livre-trânsito para o mercado de trabalho.

Nada disto seria problemático não fosse a sensação de frustração, solidão e pertença injustiça perante a incapacidade de resposta do mercado aos profissionais disponíveis no mesmo. É, aqui, que começa o desafio, no sistema de ensino era claro e objetivo o que tinha de ser feito para atingir um nível e para obter o consequente retorno: tira positivas e passas de ano, tira boas notas e podes escolher um curso de um universo tão alargado quanto a tua média. Chegados ao mercado de trabalho, para muitas pessoas o primeiro choque é aperceberem-se que as competências exigidas para se ser um estudante de excelência não são necessariamente as mesmas para se ser um excelente profissional. Aliado a isto está uma perceção errada do funcionamento do sistema, dado o raciocínio estar enviesado pela realidade que conheceram até à data, de acordo com o supramencionado.

Um sistema de ensino vocacionado para a valorização da resolução de problemas abstratos embate de frente com a realidade do mercado, que vive da deteção de problemas e necessidades concretas e a respetiva criação de soluções. Há pessoas que perante este cenário entram numa corrida desenfreada e não planeada de procura de uma solução para elas próprias, um emprego que corresponda ao seu perfil e que lhe traga o retorno justo perante todo o esforço que fizeram ao longo de muitos anos a estudar, muito tempo de preparação para aquele momento.

É, por isso, tão comum ouvir pessoas dizerem que tentaram tudo e que não conseguem, ou que que já enviaram centenas de candidaturas, mas que ninguém responde, talvez por isso não seja novidade a situação de ouvir relatos como este: “o silêncio é tão grande que fico feliz por ouvir um não”.

Quão estranho é ouvir que o mercado não olha para os trabalhadores como pessoas quando o mesmo é feito de pessoas? Trabalhemo-nos em função de um mundo mais empático independentemente do cargo que ocupamos, para que o subtítulo deste artigo de opinião – pessoa vs mercado – deixe de fazer sentido e passemos a falar de pessoas no mercado de um modo integrado e fluido.

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Artur Moura Queirós

Artur Moura Queirós

Psicólogo | Consultor de Carreira | Formador

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